domingo, 6 de dezembro de 2015

Alguns são especiais, mas todos podem ser melhores

É comum vermos pontas ou opostos executarem ataques após levantamentos rápidos, tendo como oposição bloqueios simples ou duplos pouco ajustados, utilizando direções, ângulos e potência exatamente iguais aos que executam em levantamentos altos, afastados da rede, onde há oposição de bloqueios triplos bem ajustados. Situações diferentes, no entanto, com a mesma tomada de decisão por parte dos atacantes. Na sequência, nos tempos técnicos as solicitações são também recorrentes, “Não enfrentem o bloqueio, trabalhem a bola, usem a mão de fora, etc.”,

Partindo deste exemplo, proponho alguns questionamentos: Este tipo de comportamento situacional vem sendo estimulado sistematicamente para que os atletas possuam esse repertório em seu HD? Como diria o mestre Josenildo Carvalho. 

Um dos elementos que dá poder de ação e decisão, diferenciando alguns da maioria, a tática individual pode ser definida como a capacidade do atleta em analisar as diversas situações de jogo e discernir sobre como agir de maneira eficiente e/ou eficaz.

Definindo o fundamento ataque como foco de observação, convido o leitor para relembrar e analisar antigas e recentes atuações do atleta Lucarelli, como exemplo, uma vez que vem atuando de maneira brilhante nas primeiras rodadas da Superliga 2015/2016.

Não é fato novo. Lucarelli desde muito cedo, ainda atuando pelo Minas Tênis Clube, chamava a atenção por sua enorme capacidade de agir de maneira imprevisível, com variações de trajetórias e potência, acelerando ou atrasando seus ataques, demonstrando desde então, uma forma de jogar que mais lembrava um veterano no que diz respeito ao amplo repertório ofensivo apresentado. Aliando qualidade técnica, capacidade de tomar decisões rápidas e a sua também elevada capacidade física, cada vez mais ele se firma entre os melhores jogadores do voleibol mundial no momento. 

O desenvolvimento da tática individual pode e deve ser encarado como um importante elemento a ser trabalhado na formação de novos jogadores, e porque não, também em no alto rendimento. Não só na execução dos ataques, mas em todas as partes que compõem o jogo. Por meio de treinamentos contextualizados, jogos adaptados e maior número de competições especialmente nas categorias de formação, é possível oferecer ao atleta maior vivencia em diferentes situações de jogo, estimulando-os a enriquecer seu repertório de ações, adequado-as a cada situação em que possa se deparar.

A beleza do voleibol se dá em especial pela sua característica de imprevisibilidade e tomadas rápidas de decisões, tendo como fator que poderia estar mais presente, a inovação, criatividade, ou soluções que fujam do convencional. Sim, porque não? Solucionar problemas de maneiras diferentes das usuais e com isto, surpreender o forte esquema de estudos existentes, que se baseia em repetição de padrões e comportamentos em situações específicas, não poderia ser uma forma de chegar ao êxito?

Talvez a resposta mais conclusiva quanto a eficácia deste tipo de prática seja personificada em um nome, Earvin Ngapeth. Sensação do voleibol mundial exatamente por criar soluções eficazes, mas não necessariamente comuns a maioria dos jogadores.

Maluco, corajoso, irresponsável, não sei, o que acredito é que talvez estejamos precisando de um pouco mais destes elementos em nossas quadras. E em algum tempo talvez, poderemos classificar essas ações com outros adjetivos, como espetacular, tanto quanto o próprio esporte é por si só.

* Escrito por Reinaldo Bacilieri, formado em Educação Física e Pós-Graduado em Fisiologia do Exercício e Treinamento Esportivo pelo Centro Universitário Claretiano. De 2010 a 2014, ele foi treinador de São José dos Campos tendo conquistado, entre outros títulos, a Liga Nacional e a Superliga B. Atualmente trabalha como assistente técnico do Voleisul/Paquetá Esportes.

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